Entenda como a inflação corrói seu poder de compra na prática, por que o IPCA importa para o seu bolso e quais estratégias realmente protegem o seu dinheiro em 2026.
Seu Dinheiro Parado Não Fica Parado — Ele Encolhe
Existe uma frase que uso muito quando me pedem para explicar inflação de forma simples: “Seu dinheiro parado não fica parado — ele encolhe.” E essa não é uma metáfora. É matemática.
O poder de compra — a quantidade de bens e serviços que você consegue adquirir com determinado valor — é corroído silenciosamente toda vez que a inflação avança acima do rendimento dos seus ativos. Entender esse mecanismo não é exercício acadêmico. É uma necessidade prática para qualquer pessoa que recebe salário, guarda dinheiro ou planeja o futuro.
Dinheiro parado na conta corrente perde poder de compra todo mês que passa. Dinheiro na poupança perde poder de compra em muitos cenários — porque a poupança rende menos que a inflação em períodos relevantes. E dinheiro investido no lugar errado também perde — quando o rendimento não supera o IPCA acumulado.
Por isso, vou detalhar aqui o que é inflação de verdade, como ela afeta diferentes perfis de forma concreta, qual é a relação com a Selic e quais estratégias realmente funcionam para proteger o seu poder de compra em 2026.
O Que É Inflação, de Verdade?
Como Definir o Conceito Com Precisão Prática? Poder de Compra
Inflação é o aumento generalizado e contínuo dos preços de bens e serviços em uma economia. A palavra-chave é “generalizado” — não é o aumento de um produto específico, mas de uma cesta ampla que representa o consumo médio da população.
O índice mais usado no Brasil para medir a inflação ao consumidor é o IPCA — Índice de Preços ao Consumidor Amplo —, calculado mensalmente pelo IBGE. O IPCA mede a variação de preços de uma cesta de produtos que vai de alimentação e bebidas a transporte, habitação, saúde e educação.
Quando o IPCA acumula, por exemplo, 5% em um ano, isso significa que — em média — você precisa de 5% a mais de dinheiro para comprar as mesmas coisas que comprava 12 meses atrás.
Quais São os Outros Índices de Inflação Que Você Precisa Conhecer?
O IPCA é o mais citado, mas não é o único. Cada índice mede a inflação para um segmento ou finalidade específica:
| Índice | Calculado Por | O Que Mede | Para Quem é Mais Relevante |
|---|---|---|---|
| IPCA | IBGE | Inflação para famílias de 1 a 40 salários mínimos | Meta de inflação do Banco Central — referência geral |
| INPC | IBGE | Inflação para famílias de 1 a 5 salários mínimos | Reajuste do INSS e salário mínimo |
| IGP-M | FGV | Combinação de índices — inclui produção, atacado e varejo | Contratos de aluguel — muito usado no setor imobiliário |
| IPCA-E | IBGE | Versão prévia do IPCA | Expectativas e projeções de mercado |
Para o cidadão comum, o IPCA é o índice mais relevante — é ele que define a meta de inflação do governo e que orienta a política monetária do Banco Central.
Por Que a Inflação Acontece?
Quais São as Origens do Processo Inflacionário?
Economicamente, a inflação pode ter diferentes origens — e entender a fonte ajuda a prever a duração e a intensidade do processo.
Inflação de Demanda
Quando há mais dinheiro circulando do que bens disponíveis — a economia “aquece” demais. O excesso de demanda puxa os preços para cima porque os consumidores competem pelos mesmos produtos. É o cenário de “dinheiro demais perseguindo poucos bens”.
Inflação de Custos
Quando os custos de produção sobem — energia elétrica, matérias-primas, câmbio, combustível — e os preços repassam esse aumento ao consumidor. Esse tipo de inflação é mais difícil de controlar com política monetária, porque não vem do excesso de demanda — vem do lado da oferta.
Inflação Inercial
Quando os agentes econômicos reajustam preços automaticamente com base na inflação passada, criando um ciclo que se alimenta de si mesmo. Um sindicato negocia reajuste de 8% porque a inflação foi 8% no ano anterior — e esse reajuste contribui para a inflação do próximo ano.
No Brasil de 2026, temos experimentado combinações dessas três origens, com peso relevante do câmbio — que afeta preços de importados e de combustíveis — e dos preços de energia elétrica.
O Efeito Concreto no Seu Bolso: Os Números Que Importam para o Poder de Compra
Quanto Você Perdeu Sem Perceber Nos Últimos Anos?
Deixe os números falar. Imagine que em janeiro de 2020 você tinha R$ 10.000 guardados — seja na poupança, seja na conta corrente.
De 2020 a 2024, o Brasil acumulou inflação (IPCA) de aproximadamente 36%. Isso significa que aqueles R$ 10.000 perderam, em termos de poder de compra, cerca de R$ 3.600 em valor real — mesmo que numericamente o saldo tenha crescido um pouco com os juros da poupança.
Veja o comparativo de como R$ 10.000 se comportaram em diferentes cenários entre 2020 e 2024:
| Onde Ficou o Dinheiro | Saldo Nominal em 2024 | Inflação Acumulada (IPCA) | Saldo em Valor Real (poder de compra de 2020) |
|---|---|---|---|
| Conta corrente sem rendimento | R$ 10.000 | ~36% | ~R$ 7.350 |
| Poupança | ~R$ 11.200 | ~36% | ~R$ 8.235 |
| CDB 100% CDI | ~R$ 14.300 | ~36% | ~R$ 10.515 |
| Tesouro IPCA+ 3% | ~R$ 15.600 | ~36% | ~R$ 11.470 |
Quem deixou dinheiro na poupança ficou mais pobre em termos reais — mesmo sem gastar nada. Quem ficou em conta corrente sem rendimento perdeu mais de R$ 2.600 de poder de compra em 5 anos. Apenas quem investiu em produtos atrelados ao CDI ou ao IPCA protegeu — e em alguns casos aumentou — o poder de compra real.
A Relação Entre Selic e Inflação
Como a Taxa Básica de Juros Afeta a Inflação e o Seu Dinheiro?
A Taxa Selic é o principal instrumento de política monetária do Brasil — definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Entender sua relação com a inflação é fundamental para qualquer decisão de investimento ou de crédito.
A lógica é direta: quando a inflação sobe, o Banco Central aumenta a Selic para encarecer o crédito, reduzir o consumo e, consequentemente, diminuir a pressão sobre os preços. Quando a inflação está controlada dentro da meta, o BC pode reduzir a Selic para estimular a economia e o crédito.
Veja como a Selic afeta diferentes aspectos da vida financeira:
| Aspecto | Selic Alta | Selic Baixa |
|---|---|---|
| Crédito pessoal | Mais caro — taxa de empréstimo sobe | Mais barato — crédito fluente |
| Financiamento imobiliário | Parcelas maiores | Parcelas menores |
| Renda fixa (CDI, Tesouro Selic) | Rende mais | Rende menos |
| Ações e renda variável | Concorrência maior da renda fixa — tende a pressionar preços para baixo | Migração de recursos para a bolsa — tende a beneficiar |
| Câmbio | Tendência de apreciação do real — importados mais baratos | Tendência de desvalorização — importados mais caros |
Em 2026, a Selic segue em patamar elevado — o que beneficia quem tem dinheiro em renda fixa atrelada ao CDI, mas encarece o crédito para quem precisa financiar qualquer coisa.
Qual é a Meta de Inflação e o Que Acontece Quando Ela é Descumprida?
O Conselho Monetário Nacional (CMN) define anualmente a meta de inflação que o Banco Central deve perseguir. Quando a inflação fica acima da meta — especialmente acima do teto da banda de tolerância —, o BC é obrigado a publicar uma carta aberta ao Ministro da Fazenda explicando as razões e os planos de correção.
Acompanhar se a inflação está dentro ou fora da meta é um indicador relevante de para onde a Selic pode ir — e, consequentemente, para onde vai o rendimento dos seus investimentos em renda fixa.
Como a Inflação Impacta Diferentes Perfis
Quem Sofre Mais Com a Alta dos Preços?
A inflação não afeta todo mundo da mesma forma. O impacto depende do perfil de consumo, da fonte de renda e do tipo de ativos que cada pessoa possui.
Assalariados
O reajuste salarial anual raramente acompanha a inflação real do período — especialmente nos setores sem negociação sindical forte. Quem recebe o mesmo salário nominal está, na prática, ganhando menos do que no ano anterior.
Veja o impacto de um salário de R$ 5.000 com reajuste abaixo da inflação:
| Ano | Inflação (IPCA) | Reajuste Recebido | Salário Nominal | Salário Real (poder de compra) |
|---|---|---|---|---|
| 2023 | 4,62% | 3% | R$ 5.150 | Abaixo do necessário |
| 2024 | 4,83% | 4% | R$ 5.356 | Abaixo do necessário |
| 2025 | ~5,5% | 4% | R$ 5.570 | Abaixo do necessário |
Após 3 anos de reajustes abaixo da inflação, o trabalhador perdeu vários pontos percentuais de poder de compra real — mesmo recebendo aumentos nominais todo ano.
Aposentados e Beneficiários do INSS
O reajuste do INSS usa o INPC — Índice Nacional de Preços ao Consumidor — que mede a inflação para famílias de menor renda. Quando o INPC fica abaixo da inflação sentida no orçamento do aposentado — especialmente em saúde e alimentação, que pesam mais no orçamento de pessoas mais velhas — o poder de compra se deteriora mesmo com o reajuste formal.
| Gasto | Peso no IPCA | Peso no Orçamento de Aposentado | Inflação Típica |
|---|---|---|---|
| Saúde | ~12% | ~25% a 35% | Acima do IPCA médio |
| Alimentação em casa | ~23% | ~30% a 40% | Variável — alta em anos de seca |
| Transportes | ~20% | ~10% | Alta — combustível e tarifas |
| Lazer | ~11% | ~5% | Moderada |
Para o aposentado, a inflação que importa não é o IPCA médio — é a inflação do seu orçamento específico. E esse número frequentemente supera o índice oficial.
Pequenos Empreendedores
Quem tem negócio próprio sofre a inflação dos insumos antes de conseguir repassar ao cliente. Esse intervalo — chamado de “gap de repasse” — comprime as margens operacionais e exige gestão financeira cuidadosa para não erosão do lucro.
Por exemplo: o custo de matéria-prima sobe 8% em março. O empreendedor só consegue reajustar os preços ao cliente em maio — após negociação e resistência. Nesses dois meses, a margem absorveu o impacto sem repasse.
A Inflação Que Você Não Vê: Os Impactos Silenciosos
Quais São as Formas Menos Óbvias de Perda de Poder de Compra?
Além do aumento visível nos preços, a inflação age por canais menos óbvios que corroem o poder de compra de forma silenciosa:
Shrinkflation — Redução de Volume Sem Redução de Preço
A indústria frequentemente mantém o preço do produto mas reduz o volume ou a quantidade. O pacote de 1 kg passa a ter 900g pelo mesmo preço — um aumento de preço disfarçado de manutenção. O IBGE monitora esse fenômeno, mas o consumidor raramente percebe no momento da compra.
Qualitéflation — Redução de Qualidade Sem Redução de Preço
Ingredientes trocados por versões mais baratas, acabamento inferior, matéria-prima de menor qualidade — tudo mantendo o mesmo preço nominal. O produto parece o mesmo, mas entrega menos.
Inflação de Ativos — O Outro Lado da Moeda
Enquanto a inflação corrói o poder de compra do consumidor, ela frequentemente eleva o preço nominal de ativos — imóveis, ações de empresas que repassam inflação, commodities. Quem tem patrimônio nesses ativos se protege ou se beneficia. Quem tem apenas dinheiro em conta corrente ou poupança perde.

Estratégias Para Proteger Seu Poder de Compra em 2026
Como Defender o Seu Dinheiro da Inflação na Prática?
Estratégia 1 — Sair da Poupança e do Dinheiro Parado
O primeiro passo é o mais básico — e ainda assim o mais ignorado. A poupança rende apenas 70% da Selic quando a taxa básica está acima de 8,5% ao ano. Em 2026, com a Selic em patamar elevado, isso representa uma desvantagem concreta e mensurável.
Veja o rendimento comparativo para R$ 50.000 em 12 meses (valores ilustrativos com Selic elevada):
| Aplicação | Rendimento Estimado Anual | Valor ao Final de 12 Meses | Protege da Inflação? |
|---|---|---|---|
| Conta corrente sem rendimento | 0% | R$ 50.000 | ❌ Não |
| Poupança | ~70% Selic | Inferior às demais | ❌ Raramente |
| CDB 100% CDI | ~Selic − IR | Verificar taxa vigente | ✅ Sim — na maioria dos cenários |
| Tesouro Selic | ~Selic − IR (regressivo) | Verificar taxa vigente | ✅ Sim |
| Tesouro IPCA+ | IPCA + taxa real | Verificar taxa vigente | ✅ Sim — protege diretamente |
Estratégia 2 — Usar o Tesouro IPCA+ Para Proteção Direta
O Tesouro IPCA+ é o título público que paga IPCA mais uma taxa real predefinida. Por definição, ele protege diretamente o poder de compra — porque o rendimento é sempre IPCA (inflação) mais um ganho real acima dela.
| Característica | Tesouro IPCA+ |
|---|---|
| Rendimento | IPCA + taxa real (verificar taxa vigente no Tesouro Direto) |
| Proteção contra inflação | Direta — por construção |
| Liquidez | D+1 — mas com marcação a mercado (resgate antecipado pode gerar variação) |
| Ideal Para | Objetivos de médio e longo prazo — não fundo de emergência |
| Risco | Risco de oscilação no resgate antecipado — não de perda no vencimento |
O Tesouro IPCA+ não é o veículo ideal para o fundo de emergência — porque o resgate antecipado pode resultar em valor diferente do esperado. Contudo, para objetivos de 3 anos ou mais, é uma das formas mais eficientes de proteger o poder de compra.
Estratégia 3 — CDBs e LCI/LCA Atrelados ao CDI
Com a Selic elevada, produtos atrelados ao CDI rendem acima da inflação — especialmente nas faixas de 100% a 120% do CDI. Para o investidor conservador que não quer exposição ao Tesouro IPCA+, essa é uma alternativa sólida.
LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) têm a vantagem adicional de serem isentas de Imposto de Renda para pessoa física — o que melhora o rendimento líquido em relação a CDBs com alíquota de IR.
| Produto | Tributação | Cobertura FGC | Liquidez | Indicação |
|---|---|---|---|---|
| CDB 100% CDI | IR regressivo (22,5% a 15%) | Até R$ 250k | Verificar por produto | Fundo de emergência (se liquidez diária) |
| LCI/LCA 90% CDI | Isento de IR | Até R$ 250k | Geralmente com carência | Objetivos de 90 dias ou mais |
| Tesouro Selic | IR regressivo | Sem limite — governo federal | D+1 | Fundo de emergência e curto prazo |
| Tesouro IPCA+ | IR regressivo | Sem limite — governo federal | D+1 (com variação) | Médio e longo prazo |
Estratégia 4 — Diversificação com Ativos Reais
Para quem já tem fundo de emergência constituído e capacidade de assumir algum risco, ativos reais oferecem proteção histórica contra a inflação:
Fundos Imobiliários (FIIs): distribuem rendimentos mensais isentos de IR para pessoa física e têm histórico de reajustar aluguéis pela inflação ao longo do tempo.
Ações de empresas que repassam inflação: empresas de utilities (energia, saneamento), commodities e concessões frequentemente têm contratos com reajuste automático pela inflação — o que protege as receitas em termos reais.
Imóvel físico: tem histórico de valorização que acompanha ou supera a inflação no longo prazo — mas com baixa liquidez e custos de manutenção e transação relevantes.
Esses ativos não são para fundo de emergência — são para a parcela da carteira dedicada ao crescimento patrimonial de médio e longo prazo.
Estratégia 5 — Controlar os Gastos com Mais Precisão
Em períodos inflacionários, pequenas perdas no orçamento se acumulam rapidamente. A gestão ativa das despesas é uma forma de proteção do poder de compra — tão eficiente quanto as estratégias de investimento, e mais imediata.
Ações práticas:
- Revisão de contratos: plano de celular, internet, TV por assinatura — renegociar com ameaça de cancelamento frequentemente resulta em condições melhores
- Comparação de preços: em supermercados, farmácias e postos de gasolina, a diferença entre fornecedores pode ser de 10% a 30% no mesmo produto
- Cancelamento de assinaturas subutilizadas: streaming, aplicativos, clubes de assinatura que você usa menos do que paga
- Planejamento de compras grandes: antecipar compras de bens duráveis antes de reajustes previsíveis — como eletrodomésticos antes do dólar subir — pode representar economia real
Estratégia 6 — Acompanhar o IPCA Mensalmente
Parece simples — mas poucos fazem: acompanhar a inflação mês a mês permite antecipar reajustes e ajustar o planejamento financeiro antes que o impacto apareça na fatura.
O IBGE publica o IPCA mensal todo mês — geralmente na primeira semana do mês seguinte. Com esse dado, você pode:
- Estimar o impacto no seu orçamento nas próximas semanas
- Antecipar negociações de reajuste salarial com base em dados recentes
- Ajustar provisões para gastos que tendem a subir junto com a inflação (alimentação, saúde)
- Comparar o rendimento dos seus investimentos com a inflação real do período
Erros Comuns de Quem Não Entende o Impacto da Inflação
O Que Evitar Para Não Perder Poder de Compra Sem Perceber?
Erro 1 — Confundir rendimento nominal com rendimento real
Um investimento que rendeu 10% em um ano em que a inflação foi de 8% gerou apenas 2% de ganho real. Avaliar sempre o rendimento real — acima da inflação — é o hábito que separa o investidor que realmente cresce daquele que apenas ilude a si mesmo com saldos crescentes.
Erro 2 — Manter dinheiro na poupança por costume
A poupança é o hábito mais arraigado do brasileiro — e um dos que mais destrói poder de compra em ambiente de Selic elevada. A inércia tem custo real e mensurável.
Erro 3 — Ignorar o reajuste de contratos indexados ao IGP-M
Contratos de aluguel indexados ao IGP-M podem ter reajustes significativamente acima do IPCA em determinados anos — porque o IGP-M inclui a variação de preços no atacado e pode oscilar mais que o índice ao consumidor. Conhecer o índice do seu contrato e negociar quando o reajuste for desproporcional é uma proteção relevante.
Erro 4 — Não ajustar metas financeiras pela inflação
Quem planeja acumular R$ 500.000 para a aposentadoria em 20 anos precisa calcular qual é o poder de compra de R$ 500.000 daqui a 20 anos — considerando a inflação acumulada. Uma meta nominal pode ser muito inferior ao necessário em termos reais quando o horizonte é longo.
Erro 5 — Deixar salário e benefícios sem reajuste por anos
Cada ano sem reajuste que acompanhe a inflação é um ano de redução de salário real. Negociar reajustes com base no IPCA acumulado do período — e não apenas na tabela da empresa — é uma defesa legítima e documentável do poder de compra.
Checklist: Use Para Avaliar a Proteção do Seu Poder de Compra
Diagnóstico atual:
- Calculei quanto o IPCA acumulado dos últimos 3 anos corroeu o poder de compra do meu salário?
- Sei qual é o rendimento real (acima da inflação) dos meus investimentos atuais?
- Tenho dinheiro parado em conta corrente ou poupança sem rendimento adequado?
Ações de proteção:
- Meu fundo de emergência está em produto que rende acima da inflação (Tesouro Selic ou CDB liquidez diária)?
- Tenho alguma parcela de investimentos em produtos atrelados ao IPCA (Tesouro IPCA+, LCI, LCA)?
- Revisei contratos de aluguel, telefone e internet nos últimos 12 meses?
- Acompanho o IPCA mensal publicado pelo IBGE?
Planejamento de longo prazo:
- Minhas metas financeiras estão calculadas em valor real — corrigidas pela inflação esperada?
- Tenho estratégia de diversificação que inclui ativos reais (FIIs, ações de empresas que repassam inflação)?
Análise de Cenários: Como a Inflação Afeta Diferentes Decisões
Como Usar o Entendimento da Inflação Para Decisionar Melhor?
Cenário 1 — Negociação de Reajuste Salarial
Um profissional com salário de R$ 6.000 em 2023 que recebeu reajuste de 3,5% em 2024 (quando o IPCA foi de 4,83%) perdeu 1,33% de poder de compra real naquele ano. No segundo ano com reajuste abaixo da inflação, a perda acumulada já passa de 2,5% em termos reais — o equivalente a mais de R$ 1.800 por ano de poder de compra perdido.
Usar o IPCA acumulado como argumento na próxima negociação — e documentar com a fonte oficial (IBGE) — transforma a discussão de “eu quero mais” para “meu salário precisa pelo menos repor o que foi corroído pela inflação”.
Cenário 2 — Decisão de Deixar R$ 30.000 na Poupança vs. Tesouro Selic
Com a Selic a 14% ao ano (aproximação para ilustração) e a poupança rendendo 70% da Selic (~9,8% ao ano), a diferença em 1 ano sobre R$ 30.000 é de aproximadamente R$ 1.260 — o rendimento adicional de usar o Tesouro Selic em vez da poupança, mesmo após o IR. Em 3 anos, esse diferencial acumulado supera R$ 4.000.
A inércia de não mudar tem um custo concreto e calculável.
Cenário 3 — Compra de Imóvel vs. Aluguel em Período de Alta Inflação
Em períodos de inflação elevada, os preços de imóveis tendem a subir — mas o crédito imobiliário fica mais caro porque a taxa de financiamento sobe junto com a Selic. A decisão de comprar ou alugar em cada contexto econômico é mais complexa do que a intuição sugere — e exige considerar o custo real do financiamento versus a proteção que a propriedade oferece contra a inflação de longo prazo.
FAQ — Perguntas Frequentes Sobre Inflação e Poder de Compra
O que é inflação negativa (deflação) e é algo bom? Deflação é a queda generalizada dos preços — o oposto da inflação. Parece positiva, mas frequentemente indica problema econômico: queda na demanda, desemprego crescente ou retração econômica. Os consumidores adiam compras esperando preços menores — o que desacelera ainda mais a economia. Deflação prolongada é tão problemática quanto inflação alta, por razões diferentes.
Como o câmbio afeta a inflação no Brasil? O Brasil importa petróleo processado, equipamentos industriais, fertilizantes e vários produtos de consumo. Quando o real se desvaloriza em relação ao dólar, o custo desses itens sobe em reais — o que pressiona os preços internos. Por isso, momentos de dólar alto frequentemente precedem alta de preços em combustíveis, fertilizantes (que afetam alimentos) e eletrônicos.
Vale a pena comprar ouro como proteção contra a inflação? O ouro tem histórico de ser reserva de valor em momentos de crise e inflação elevada — mas com volatilidade relevante no curto prazo. Para o investidor brasileiro, o Tesouro IPCA+ oferece proteção inflacionária direta, com maior previsibilidade e liquidez. O ouro pode ser parte de uma carteira diversificada, mas não é o instrumento mais eficiente para proteção inflacionária no contexto do mercado financeiro brasileiro.
Como calcular meu rendimento real no investimento? A fórmula correta é: Rendimento Real = ((1 + rendimento nominal) ÷ (1 + inflação)) − 1. Por exemplo: investimento que rendeu 12% ao ano com IPCA de 5% → rendimento real = ((1,12 ÷ 1,05) − 1) = 6,67% ao ano em termos reais. Essa é a taxa que efetivamente aumentou seu poder de compra.
Conclusão: A Inflação Não é Apenas Número de Jornal
A inflação determina quanto vale o seu salário, quanto rende a sua poupança e qual será o custo de vida daqui a dez anos. Compreender esse mecanismo é o primeiro passo para tomar decisões financeiras mais inteligentes — seja na escolha de onde guardar dinheiro, seja na negociação do próximo reajuste salarial, seja no planejamento de longo prazo.
A boa notícia é que proteger o poder de compra não exige sofisticação — exige informação e ação. Sair da poupança para o Tesouro Selic. Incluir o Tesouro IPCA+ para objetivos de médio prazo. Revisar contratos com indexadores acima da inflação. Negociar reajustes com base no IPCA documentado.
Cada uma dessas ações é simples — e cada uma delas protege um pedaço do seu poder de compra que a inflação estaria corroendo silenciosamente.
O economista e o cidadão precisam, eventualmente, falar a mesma língua. E essa língua se chama poder de compra real.
Você já percebeu o impacto da inflação no seu orçamento em 2026? Conta nos comentários qual foi a área em que sentiu mais — alimentação, saúde, combustível, aluguel — e se já adotou alguma estratégia para se proteger. E se este conteúdo ajudou a entender como o seu dinheiro está sendo corroído e o que fazer, compartilhe com alguém que também precisa dessas informações.
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Thiago tem 44 anos, nasceu em Brasília e é economista formado pela UnB, com mestrado em Economia Aplicada pela USP. Atuou por 8 anos no setor público analisando políticas fiscais, e hoje é consultor econômico independente e colunista ocasional em portais de finanças. Acompanha de perto o cenário macroeconômico brasileiro — Selic, inflação, câmbio, mercado de trabalho — e tem opinião formada sobre tudo isso. Escreve com profundidade analítica, mas sem hermetismo; gosta de conectar o “macro” com o impacto no bolso do cidadão comum.




